segunda-feira, 4 de maio de 2009

Memórias de um homem de 89 - Prt I - Conhecer

imagem:luis lanção


Querer algo, às vezes torna-se meio caminho andado para podermos realizar o nosso desejo…cumprir por uma vez que seja, aqueles supérfluos objectivos que em cada dia-a-dia tentamos conquistar, apesar de muitas vezes só dessa batalha restar o insucesso.
É, aprendemos assim, eu aprendi, apesar de negar bastante as lições da minha vida…hoje tenho 89 anos, e aquele que fora até hoje, a pessoa com quem partilhava as minhas emoções, histórias…faleceu…e aqui sentado naquela que era a nossa cama sinto-me só…foi com ele um grande pedaço de mim, sinto a vida a escapar entre os dedos, quero coragem para ir mais longe, quero sentir que não vou morrer aqui…o frio tornou-se companhia constante, nem o sol nem mais nada me traz aquilo que era a felicidade outrora.
Por vezes, temi ser pouco para aquilo que me davas, mas nada trazias se não sorrisos, e não conseguia ser triste nem por momentos…quase…quase que por magia sentia-me bem contigo...
Tinha dezoito anos, quando te conheci, certo? Foi, ainda me lembro como se fosse ontem, foi o melhor momento da minha vida, e da tua creio…Era o primeiro dia do meu 12º ano, aquele que seria o último ano de escola, e o mais importante da minha vida. Vi-te carregado de livros, a andar cambaleante pelo corredor, e pensei “coitado, se calhar é melhor ajuda-lo”….propositadamente coloquei-me a tua frente, chocamos, e abrindo-se uma chuva de livros, os nossos olhares cruzaram-se entre capas, e páginas soltas, estabeleceu-se uma ligação única, algo eterno.
Meio embaraçado, ajudei-te a apanhar os livros, as nossas mãos tocaram-se, era a confirmação de que ali havia algo perfeito, algo…sem explicação.
Meio tímido e confuso pediste desculpa.
-Não te vi, desculpa… (risos). Prazer o meu nome é Daniel.
-Muito gosto, sou o William.
Só queria que aquele momento durasse para sempre, não queria que pegasses no livros e apenas ficássemos por ali…suspirei, quando antes de virares as costas, pronto para partir, perguntaste…”Queres almoçar comigo?”…depois disso senti algo cá dentro, algo que jamais tinha sentido, parecia que estava a pegar fogo, os meus lábios estavam paralisados enquanto que por dentro gritava “Sim, sim!”, eu permaneci imóvel, alheio ao reboliço do corredor..até que lentamente se soltou um leve sim.
Sorriste. Que vergonha! Mas ao ver-te assim, com aquele luz do meio-dia, tudo passou, o medo, a insegurança, foi-se com o vento e suores de hesitação, meios perdidos…
(continua) luis lanção

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